segunda-feira, 2 de junho de 2014

QUARTA-FEIRA



Era quarta-feira. Café meio amargo e quente, como sempre, sobre a mesa do trabalho. Muitas pendências, muitas pessoas, muito de tudo, dia cheio. A mente estava como que vazia de sentido. A atenção, quase dominada, atraída, como mariposa pela luz ofuscante, revivia a lembrança reluzente e quente. Isso aquecia seu coração naquela sala gelada. De repente, a voz longínqua ganha força e o faz emergir de si próprio com se fora fisgado em alto mar e lançado na areia quente. Chefe? Chefe? Os supervisores o aguardam na sala de reuniões para planejamento do funcionamento do novo prédio, o senhor, não vem? Claro que ele iria, ali era mais que seu trabalho, o qual amava, era também seu refúgio para todas as intempéries dos últimos tempos.

Tudo, perfeitamente, resolvido. No fim do dia, olha pela janela da sala, o sol se pondo, o faz retornar à lembrança, não numa atração avassaladora, mas com a suavidade tal do perfume de seu amor. Pega o telefone. Titubeia, mas não resiste. Alo? tudo bem? Como passou o dia? Não era isso que desejava falar, pouco importava como havia sido o dia, só gostaria de dizer o quanto amava. Não conseguiu.

Ao chegar em casa, como que derrotado, embora tenha tido uma quarta-feira produtiva em seu trabalho, a frustração lhe pesava as costas. Precisava abrir o coração e derramar seus sentimentos. Conversar com um amigo, não qualquer um. Aquele o que conhecia bem, conhecedor de sua fragilidade. Sim, ele o entenderia. Vai ao seu encontro e, entre um gole e outro de whisky puro alivia sua alma e alimenta sua coragem. Sai do bar fortalecido como sansão, contudo tão frágil e entregue a esse sentimento como adolescente no primeiro amor.

Ao chegar em casa, a ligação. Alô? Falei a um grande amigo de sua existência, de quanto você é linda e de tudo que representa para mim. Do outro lado, o silêncio. Ele insiste, ele quer conhecer você. O silêncio é quebrado com uma pergunta: o que seu amigo disse sobre tudo isso? A resposta ansiosa surge: deveria me casar com você. Do outro lado, o espanto, o riso descabido e a resposta indesejada: Las Vegas? Seu coração ficou destruído. Tinha esperado muito por aquele dia, não era uma quarta qualquer, era a quarta-feira. Havia fugido de si próprio todo esse tempo, não queria se entregar, mas era chegada a hora de se mostrar para ela e para si próprio, imergir naquele oceano de sentimento. 

Esse "Las Vegas" corroeu-lhe as entranhas como ácido fluorídrico, silencioso e mortal. O vazio o preencheu. A lágrima quente e sofrida lhe desce pelo rosto, rasgando suas entranhas. Seu peito dói. A respiração torna-se pesada. Olha para relógio sobre o criado-mudo ao lado da cama. É meia-noite e meia. Já é quinta-feira. O sono lhe vem como o cobertor quente e o acolhe naquela madrugada fria. Quando será, finalmente, quarta-feira?