Escrever é muito mais que um ato criativo, é uma necessidade de se (re)iventar a cada palavra e, talvez, de se (re)descobrir a cada história contada; é o ecoar da mente que na memória seleciona o que lhe agrada, reconfigura o antigo e o projeta como novo. Meu humilde desejo é que aqui, de algum modo, você possa se encontrar ou desencontrar, ao entrar nesse mundo confuso que chamo de meu.
sexta-feira, 24 de julho de 2015
Hora da morte?
Vento impetuoso. Nuvens carregadas, no horizonte, vem tempestade! As árvores retorcidas agonizantes gritavam emudecidas de sofrimento por todos os lados. Pés descalços sentem as pequenas pedras negras e cinza no caminho tortuoso por entre a vegetação moribunda. Naquele fim de tarde nublado, o cenário apocalíptico diante dos olhos não mais a angustiava, sobremaneira trazia profunda paz. Respirou fundo e sentiu-se viva. Seguiu lentamente, enquanto era acariciada pela vento, que parecia açoitar violentamente tudo ao redor. Os longos cabelos lisos e castanhos e o vestido azul-claro longo serpentiavam à tormenta que se aproximava, enquanto divinamente seguia. Torrencialmente, a água começou a cair do céu, já cinza escuro. Parou e abriu os braços como se entregue à tempestade. De olhos fechados ergueu a cabeça lentamente e sentiu o impacto das gotas plúmbicas daquela chuva. Não sentia dor, não mais. Misturada à agua vinda do céu, lágrimas, muitas lágrimas. E ali, como que petrificada, sentia-se, pela primeira vez em muito tempo, flutuar. Não entendia, apenas sentia.
Muitos minutos passados, já com chuva bem menos intensa, voltou a seguir, ar penetrava as narinas e parecia refrescar-lhe a alma. Seguiu por muitos e muitos metros e ao redor o cenário não mudava, contudo, ainda era dia, porque pequenos raios alaranjados cortavam as trevas das espessas nuvens e sentiu o calor deles torcar-lhe a face, que se iluminou com um sorriso.
Pelos vidros da janela, raios de sol de um lindo entardecer aqueciam o leito 13, após a copiosa chuva de instantes anteriores. Enquanto administra uma injeção de antibiotíco na paciente do leito 12, no leito treze, a técnica percebe um sorriso discreto, que iluminou por instantes o rosto cansado. Uma lágrima silenciosa corre pelo rosto pálido rasgando as entranhas da enfermeira. A mulher de meia idade, sapatos negros, roupa azul e jaleco branco, paralisada, olha para aquela jovem de cabelos castanhos e roupa azul-claro e percebe sua cabeça pender para o lado esquerdo. O som pertubador dos aparelhos que disparam anunciando a partida da jovem não a fazem sair do lugar. O médico e outros dois enfermeiros chegam ao leito da moça para prestar asssitência, contudo ainda não consegue se mover, está petrificada. Lágrimas escorrem pelo rosto. Olha minuciosamente para suas próprias mãos, percebe suas unhas roídas e mãos envelhecidas. No piso branco, pequenas gotas derramadas são o lamento do tempo perdido. Subitamente, retoma as forças, seca o rosto e retira seu bloco de notas de capa preta e folhas amareladas do bolso do jaleco e pergunta ao médico: - Hora da morte?
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